quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Orientação Filosófica por Karl Jaspers (1883-1969)

A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituível de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio. Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosoficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão. Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.
São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da acção, do colóquio ou do silêncio. 
Karl Jaspers, 'Iniciação Filosófica' 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O Sentido da Vida por Moritz Schlick (1882-1936)

Nem todos se preocupam com a questão de saber se a vida tem sentido. Alguns — e esses não são os mais infelizes — têm a mente de uma criança, que ainda não questionou tais coisas; outros, tendo desaprendido a questão, já não as questionam. Entre ambos estamos nós próprios, aqueles que procuram. Não conseguimos projetar-nos de novo no nível do inocente, para quem a vida ainda não olhou com os seus olhos escuros e misteriosos, e não nos interessa juntarmo-nos aos saturados e fatigados que já não acreditam em qualquer sentido na existência por não terem conseguido encontrar qualquer sentido na sua própria vida.
Aquele que não conseguiu atingir o objetivo que procurava na sua juventude, e que não encontrou nada que o substituísse, pode lamentar a falta de sentido da sua própria vida, mas pode ainda acreditar que a existência em geral tem sentido e pensar que tal sentido está presente nos casos em que uma pessoa atingiu os seus objetivos. Mas aquele que, depois de muito esforço, conseguiu atingir os seus propósitos, e que depois descobriu que o seu prêmio não é tão valioso como parecia, de alguma maneira sente-se enganado — confronta-se abertamente com a questão do valor da vida e diante dele, como um solo sombrio e devastado, permanece o pensamento de que, para além de todas as coisas serem transitórias, em última análise tudo é em vão…
Qual é a razão para a estranha contradição que consiste no fato de o sucesso e a satisfação não se fundirem num sentido apropriado? Não parece prevalecer aqui uma lei inexorável da natureza? O ser humano estabelece objetivos para si próprio, e enquanto os persegue apoia-se na esperança, é verdade, mas ao mesmo tempo vive atormentado pela dor do desejo insatisfeito. Logo que atinge o objetivo, no entanto, depois da primeira sensação de triunfo segue-se inevitavelmente um sentimento de desolação. Permanece um vazio, que aparentemente só pode culminar com a emergência dolorosa de novas ambições, com o estabelecimento de novos objetivos. Assim recomeça o jogo, e a existência parece estar condenada a ser uma oscilação incansável entre dor e aborrecimento que termina com o nada que é a morte. Esta é a célebre linha de pensamento que está na base da visão pessimista da vida de Schopenhauer. Não haverá uma maneira de lhe poder escapar?…
Na verdade, nunca encontraremos um sentido último na vida se a virmos apenas sob o aspecto do propósito.
Não sei, no entanto, se o fardo dos propósitos pesou alguma vez mais sobre a humanidade do que no momento presente. O presente idolatra o trabalho. Mas trabalho significa atividade dirigida para objetivos, direção para um propósito. Supõe que estás no meio da multidão numa rua agitada de uma cidade e imagina-te a parar os transeuntes, um por um, para lhes perguntares: “Onde é que vais tão depressa? Que assunto importante tens de resolver?” E se, depois de conheceres o objetivo imediato, perguntasses depois pelo propósito desse objetivo, e depois pelo propósito desse propósito, acabarias sempre por chegar ao seguinte propósito depois de poucos passos na sequência: manter a vida, ganhar o próprio pão. E manter a vida porquê? Para esta questão dificilmente conseguirias extrair uma resposta inteligível a partir da informação obtida…
O núcleo e valor último da vida só pode residir em estados que existem em função de si próprios e que contêm em si próprios a satisfação que proporcionam… Ora, a vida significa movimento e ação, e se desejamos descobrir um sentido nela devemos procurar atividades que contêm o seu valor e propósito em si próprias, independentemente de quaisquer objetivos exteriores; atividades, portanto, que não são trabalho, no sentido filosófico do termo… Existem realmente tais atividades. Para sermos consistentes, devemos chamar-lhes jogos, já que este é o nome para a ação livre e sem propósito, isto é, para a ação que na verdade contém em si o seu propósito…
Jogar, como entendemos a noção, é qualquer atividade que decorre inteiramente em função de si própria, independentemente dos seus efeitos e consequências. Não há nada que impeça esses efeitos de serem de um tipo útil ou valioso. Se forem, tanto melhor; a ação continua a ser jogo, pois já contém o seu valor em si própria. Bens valiosos podem proceder dela, tal como da atividade intrinsecamente não aprazível em que se procura atingir um propósito. Por outras palavras, também o jogo pode ser criativo; o seu resultado pode coincidir com o do trabalho…
Olhemos à nossa volta: onde encontramos jogo criativo? O exemplo mais brilhante (que ao mesmo tempo é mais do que um simples exemplo) encontra-se na criação do artista. A sua atividade, que consiste em dar forma ao seu trabalho através da inspiração, é ela própria um prazer, e em parte é por acidente que valores duradouros resultam dela. Enquanto trabalha, o artista pode não pensar no benefício desses valores, pode nem pensar na sua recompensa, já que de outro modo o ato de criação ficará corrompido. O prêmio que abundantemente recompensa não é a corrente de ouro, mas a canção que brota do coração! Assim se sente o poeta, e também o artista. E quem se sente assim naquilo que faz é um artista.
Considere-se, por exemplo, o cientista. Conhecer, também, é um puro jogo do espírito, a procura da verdade científica é um fim em si mesmo para ele. O cientista adora medir os seus poderes contra os enigmas que a realidade lhe propõe, independentemente dos benefícios que possam de alguma maneira resultar da sua atividade…
Toda a nossa cultura terá que se concentrar num rejuvenescimento do ser humano, rejuvenescimento no sentido filosófico, de tal maneira que todas as nossas atividades se libertem gradualmente do domínio dos propósitos, que até as ações necessárias para a vida se transformem em jogo…
Toda a educação deverá encarregar-se de que nada da criança se perca no homem à medida que este amadurece, de que a separação entre a adolescência e a idade adulta vá desaparecendo gradualmente, de tal forma que o homem permaneça um rapaz até aos seus últimos anos, e a mulher uma rapariga, apesar de ser uma mãe. Se precisamos de uma regra de vida, que seja esta: “Preserva o espírito da juventude!” Pois este é o sentido da vida.

Excertos de um texto de Schlick com tradução de Pedro Galvão 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Carta atribuída a Lincoln: ao professor do meu filho ...

Apesar de não ser possível confirmar a autenticidade da presente missiva, consideramos que o seu valor e potencial reflexivo independem do autor.

"Caro professor, 
Ele terá de aprender que nem todos os homens são justos,  nem todos são verdadeiros, mas, por favor, diga-lhe que, para cada vilão, há um herói; que para cada egoísta, há também um líder dedicado; ensine-lhe, por favor, que para cada inimigo haverá também um amigo; ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada; ensine-o a perder mas também a saber gozar da vitória. Afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso. Faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros do céu, as flores do campo, os montes e os vales.
Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa; ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos. Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros; ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.Ensine-o a ouvir a todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho; ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram. Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.
Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço. Deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso. Ensine-o a ter  fé sublime em si, pois só assim poderá ter fé na Humanidade. Eu sei que lhe peço muito, mas veja o que pode fazer, caro professor."

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Comemoração Dia Mundial da Filosofia - Biblioteca do Colégio Internacional de Vilamoura

Banho de Emersão
Filosofia, Poesia e … Educação 

Nelson Moniz

"Não podemos amar a água, amar o fogo, amar a árvore sem colocar neles um amor, uma amizade que remonta à nossa infância (...) Sem infância não há verdadeira cosmicidade. Sem canto cósmico não há poesia"
Bachelard, A Poética do Devaneio, III


Imergir num aparente caos de significações faz iniciar a comemoração do Dia Mundial da Filosofia na Biblioteca do CIV.
Qual a importância da palavra? Como recordamos as nossas memórias? As memórias têm importância? Quais as memórias mais importantes? O que é o instante? O que é o tempo? Posso captá-lo? Pode o instante mudar toda uma vida? O que é que o poeta faz aos instantes?...
O poeta professor Nelson Moniz interpela os alunos do ensino secundário tentando clarificar as interligações entre a Poesia e a Filosofia.
Captar a vida, recolher o instante, estar atento ao iminente caracteriza e possibilita o poeta e o filósofo. O instante traz consigo tamanha informação que o seu labor é conceptualizá-la. Num mesmo instante o professor Nelson cita Bachelard, deixa cair os óculos e tenta apanhá-los, os alunos falam e riem cada vez menos no corredor e a luz do dia vai declinando… O instante condensa e une impressões, a palavra fixa e expressa, a memória permanece e constrói-se.
Os sentidos alcançam significado numa espécie de constelação que une sentir, pensar e agir -na Poesia como na Filosofia há poder de relação. Preocupados com o que se faz com o tempo, filósofo e poeta (o sujeito que somos) já não tecem a sua existência de modo fragmentado, orientam-se pelas estrelas, conceitos das suas memórias, desenvolvendo, criando e recriando, os seus talentos. Estão aptos para a sobrevivência e para o engrandecimento.
É assim, de um modo fulgente e luminoso, que Nelson Moniz deixa transparecer o modo como trabalha com os seus alunos do ensino primário, para que eles próprios sejam livres e talentosos em tudo o que realizem.
Cita vários dos seus alunos, e deixa a crítica clara às atites, reunites e fichites de que padece o sistema de ensino, castrador da imaginação e da espontaneidade infantis.
«-Professor, faça-me um questionário, daqueles mesmo difíceis!
1. Para que servem as palavras?
- Para sentir e mudar o mundo para melhor. Mas às vezes faz-se o contrário e é por isso que estamos em crise.
2. O que é o tempo?
- O tempo é permanecer durante a vida e acreditar que podemos ser alguma coisa.
3. O que sente um poeta quando acaba uma obra?
- Um desabafo. E o sentimento de que permanece depois da morte.»
P., 9 anos
O nosso convidado termina: a missão da Poesia é transformar, como a da escola!
Emergir do entendimento realiza um grande Dia Mundial da Filosofia no CIV graças ao talento, originalidade e poder de comunicação do nosso convidado.
Muito obrigada Nelson pela sua disponibilidade e obrigada a todos os que de diferentes formas participaram nesta atividade!!

Laurinda Silva,
Grupo Disciplinar de Filosofia do CIV

terça-feira, 15 de novembro de 2011

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Da necessidade Filosófica do Ser Relação

Como recente membro do projecto educativo das Irmãs Doroteias, senti que a minha integração deveria iniciar-se pelo desafio de real compreensão não apenas do que é, mas do que deve ser Ser-se Relação.
Digamos que do ponto de vista teológico, se nos apresentam de forma evidente e necessária os valores Fraternidade, Diálogo, Amizade… Mas eis que, numa perspectiva filosófica, metódica e racionalmente crítica, a prática desses valores inerentes ao Ser Relação se desvelam também como uma necessidade.
Na prática pedagógica de introdução à Filosofia e ao filosofar, isto é, nas primeiras sessões de Filosofia com alunos do 10º ano, é comum recorrermos à Alegoria da Caverna de Platão como forma de apresentação e apreensão daquilo que poderemos chamar atitude verdadeiramente filosófica. De capacidade e vontade de abertura, de curiosidade e de questionamento, visando uma compreensão integral e unificadora do mundo que nos rodeia. Por outro lado, a vontade de autêntica comunicação, como o prisioneiro da Alegoria da Caverna que, após se ter desprendido e vislumbrado uma possível outra face da realidade, regressa à caverna com o intuito de transportar a experiência do espanto aos seus.
Neste sentido, e não esquecendo o objectivo de perscrutar a essência do Ser Relação, cremos interessante recordar que da Grécia helénica herdamos algumas distinções úteis para o universo dos afectos. Assim, temos eros que, segundo Sócrates, é a fonte do desejo de nos amarmos uns aos outros; storgé, o amor familiar e instintivo de carinho, ternura e afecto; xenía, aquele amor que sentimos por desconhecidos; phília, o amor da amizade, e ágape, a forma mais elevada de amor, incondicional e de sacrifício pessoal.
Ora, numa viagem pela filosofia dos afectos apercebemo-nos que Ser Relação assume uma pretensão de união e comprometimento com eros, storgé, xenía, phília e acima de tudo com ágape, com o Espírito de Família entendido como Humanidade.
Neste ponto cremos que será, portanto, legítimo inferir que, se do ponto de vista teológico é imediato, porque acto de fé, este comprometimento com a Humanidade, do ponto de vista filosófico não será menos essencial. Pois se é possível postular que aquilo que é amável o é por si mesmo, e este seria o Homem como criação divina, é também possível afirmar que Ser-se Relação é, pois, vontade de autêntica comunicação, despida de pré-conceitos, genuína, ou seja, filosófica! E, acima de tudo, é-o também por si mesma!

Por Cecília Reis Maia
Texto publicado no Jornal da Paz, nº18,Set-Out 2011